Em 2019, eu trabalhava como visual designer em uma editora quando recebi uma demanda (urgente, como tudo sempre é): criar um adesivo para uma ação que aconteceria na Bienal do Livro do Rio de Janeiro.
O evento tinha se tornado palco de uma tentativa explícita de censura, por parte da gestão municipal, a publicações com temática LGBTQIA+. A resposta foi rápida, articulada por diferentes influenciadores (entre eles Felipe Neto, que encabeçou e investiu na ação), em parceria com a editora que eu trabalhava. A ação envolvia a distribuição gratuita de livros e materiais de apoio.
Meu papel era desenhar um adesivo. E rápido.
Na prática, era “só” mais uma peça gráfica. Eu nem imaginava que, na realidade, era um artefato que passaria a circular num ambiente tensionado política e simbolicamente. Naquele momento, eu não estava na Bienal. Estava diante do computador, resolvendo tipografia, contraste, escala, legibilidade. O trabalho cotidiano de designers com pouca experiência.

Do ponto de vista semiótico, um adesivo é interessante justamente por sua simplicidade. Ele é portátil, replicável e facilmente apropriável.
Vilém Flusser discute como os objetos e imagens refletem o contexto histórico e os valores da época em que estão inseridos, fazendo parte da cultura material e imaterial da sociedade para as quais foram projetadas.
Nesse contexto, um adesivo colado na capa de um livro censurado não era um enfeite. Ele reorganizava o gesto de portar aquele livro em público.
Um aspecto importante da nossa atuação: o designer nem sempre é plenamente capaz de controlar ou induzir o significado final do que projeta. A circulação e a interpretação dos usuários são capazes de redefinir a semântica do artefato.
O que aconteceu depois foi um exercício real de como a internet e a cultura de redes sociais operam a replicação. O adesivo transbordou o papel. Recebi, tempos depois, uma carta da marca Poeme-se, agradecendo pela arte que virou estampa de uma camiseta da loja. Vi a imagem ser replicada em diversos suportes, virar filtro no Instagram, virar capa de livro, fantasia… uau!
Lembrei do “I ♥ NY”, de Milton Glaser, criado em 1977 para uma campanha de turismo. O símbolo extrapolou autoria e virou domínio cultural. Evidentemente, em uma escala muito maior em contexto mundial. Mas algo semelhante aconteceu ali.
Nos tempos de internet e redes sociais, os símbolos se difundem ainda mais. Um signo visual de sucesso é aquele que “perde” seu dono. A autoria se dilui na utilidade pública do símbolo.
Quando um artefato “escapa” das mãos do autor, há uma sensação ambígua: orgulho e perda de controle. Mas talvez o ponto mais relevante não seja a perda de autoria, e sim a nossa responsabilidade, enquanto agentes sociais, pelo que colocamos em circulação.
Enfim, o que me marcou não foi “ver minha arte ganhar o país”. Foi perceber que um artefato gráfico simples pode se tornar uma ferramenta simbólica de um movimento. Ele passa a mediar relações entre pessoas que não se conhecem, mas se reconhecem.
Hoje, olhando como ux researcher e designer de serviço, percebo algo que na época, em minha jornada de visual designer, eu ainda não formulava com clareza: aquele adesivo era um ponto de contato dentro de um ecossistema maior. Uma jornada composta por fila, expectativas, cobertura midiática, redes sociais, inconformidade com a censura e posicionamento político. O artefato visual era apenas um dos dispositivos que fizeram parte dessa experiência coletiva.
Na época, eu estava resolvendo forma. Hoje, eu desenharia também o fluxo, os papéis, as fricções, os pontos de falha e os mecanismos de amplificação.
Se existe uma aprendizagem duradoura daquela experiência, é esta: o design ganha potência quando entende o sistema no qual está inserido. E perde força quando se acredita autossuficiente.
Talvez o verdadeiro deslocamento não tenha sido o do signo que fugiu do arquivo .ai. Foi o meu. De alguém que desenhava peças para alguém que hoje pesquisa e mapeia relações, estruturas e experiências inteiras, sabendo que, no fim, qualquer artefato só faz sentido quando é projetado com propósito e significado, considerando seus efeitos na experiência coletiva.
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